Batone - Lixo Extraordinário (2007)

LIXO EXTRAORDINÁRIO
(Resenha do álbum por El Escama)
Produção impecável de Júlio Anizelli, Batone e Mizão. Arranjos desafiadores proporcionados por uma espinha dorsal extremamente competente. Letras que me fazem pensar seriamente em iniciar algum curso de caligrafia só pra escrevê-las da forma como elas merecem aparecer.
Resumindo, estamos diante de um disco cuidadosamente lapidado, moderno, experimental e que não perde a veia pop. Sim, honorável cidadão, pop! Pois, doa a quem doer, Batone reflete durante o disco a rica diversidade musical brasileira, juntando passado, presente e futuro sem causar estranhamento entre os ritmos, influências e instrumentos que vagam durante as 13 faixas da bolacha: a música intensa dos sentidos!
Logo de cara, Der Leone vomita a obra de Glauber Rocha nos transformando num alvo fácil de abater para as metralhadoras que mais parecem um naipe de metais alucinado (ou seria o contrário?). A voz incidental de Paulo Autran é simplesmente arrepiante.
Trégua seria folk se não fosse psicodélica, se não fosse progressiva, se não tivesse solos invertidos. E até seria uma inversão de valores se não fosse tão delicada e emocional, se não fosse tão pesada... tóra... tóra... tóra!!!
Sem a menor piedade, o guia turístico Aos poloneses do Brasil manda ao inferno as boas intenções numa noitada (ou seria uma bad trip?) carioca. Tupi or not tupi!
Super é o rock’n’roll comendo solto. Guitarras distorcidas e vibrafone! Solo de teclado lembrando trilha de vídeo game dos anos 90. Pro dia-a-dia, nada melhor que o super dindi!
Seguindo essa pegada, Amarelo quase roxo é uma espécie de jingle do improvisador, do anti-comodismo, de quem faz acontecer. “Se acha a fórmula, satura”.
A partir d’Os acrobatas epiléticos o disco busca novas sonoridades em outros ritmos, sem perder seu foco jamais! Eles pedem pra preparar a vaia, mas como posso me atrever a vaiar um magnífico arranjo que leva a voz rasgada de Batone pro centro de um picadeiro circense???
Ou deixar de aplaudir Tarzan moderno, um samba mutante que não quer perder aquilo que já estava na mão? Só posso negar o pedido e prover esses caras com mexericas e maçãs!
A balada psicodélica Acidente na Rua Prof. Azevedo Marques descreve um amor em meio ao caos urbano, sem medo de atravessar a rua de olhos fechados. Confiando nos riscos, sem mapa pra te guiar ao final feliz. Enfim, essas coisas que tornam importante qualquer acidente...
A dançante Gang-Bang mergulha de cabeça num relacionamento onde faz-se urgente uma escolha entre um amor seguro ou uma deliciosa aventura cega, surda e muda. Errado? Ah, o mundo é ruim, mas a vida até que é boa! Tenha certeza que sim.
Falar sobre My heart now is rock deveria ser fácil, já que sou o autor. Mas não é! Numa crise típica que assola os compositores, decidi que nunca mais faria uma canção “pra salvar o mundo” e tentei um tango engraçadinho. Mas onde já se viu um tango que não fosse trágico??? O resultado é a ode ao humor negro mais pessoal que já escrevi. Batone teve o brilhantismo de definir na última estrofe.
Tudo te é falso e inútil é um gol de placa, já que é um amontoado de frases lidas e relidas por todos nós nas placas que cruzamos durante nosso trânsito. E esse amontoado tem sentido? Ora, ora, tudo é muito sutil...
Rosa dos ventres é hipnotizante. Só me falta decidir se é por causa do teclado, ou pela linha de baixo, ou pelo dedilhado da guitarra, ou pela poesia narrada, ou se é por tudo isso junto!
Com a missão de fechar o disco, O inventor talvez tenha sido composta após uma dessas já citadas crises de compositor, que foi superada (sempre é superada, né? Brian Wilson que o diga!) com a ajuda de uma mão (ou boca) amiga e na busca pelas antigas influências, como mostram as citações à Belchior e Arnaldo Baptista. Nada como um dia atrás do outro e uma noite no meio pra sair uma canção especial (e espacial) como essa!
Concluindo, trata-se de um extraordinário liquidificador sonoro! Mas deixe-me parar por aqui porque é madrugada e já tem vizinho deixando recado pra eu diminuir o volume...

As 13 canções em MP3:
1. Der Leone
2. Trégua
3. Aos poloneses do Brasil
4. Amarelo quase roxo
5. Super
6. Gang-bang
7. Os acrobatas epiléticos
8. My heart now is rock
9. Acidente na Rua Prof. Azevedo Marques
10. Tudo te é falso e inútil
11. Rosa dos ventres
12. Tarzan moderno
13. O inventor

DL: Download do álbum completo

Site: lixoextraordinario.com.br

Info & Buy: BuscaPé

$ifrão - Além do Vento (2004)

Completando 10 anos de carreira em 2007, a banda alagoana $ifrão, que muitos críticos consideram uma das grandes revelações do pop/rock nacional da atualidade, se prepara para entrar em estúdio e gravar seu 4º CD, programado para o segundo semestre deste ano. Enquanto isso não acontece, você (...) tem a chance de conferir "Além do Vento", 3º disco do hepteto, e descobrir por que uma boa parte da crítica especializada tem feito tanto oba-oba em cima deles.
Refletindo toda a maturidade adquirida pela banda durante longos anos de estrada, "Além do Vento" traz um trabalho inquieto e em constante mutação. Vertentes e sonoridades distintas fazem do CD um pequeno mosaico de influências como rock, reggae, ska, folk, hardcore, dixieland e até punk. É como se cada faixa tivesse personalidade própria, independente de ser parte integrante de uma obra, fazendo com que "Além do Vento" soe como um álbum composto por figurinhas totalmente diferentes.
A produção caprichada do disco exibe uma imensa gama de detalhes e arranjos que procuram dar a cada faixa exatamente aquilo que ela necessita. Se o clima é folk, lá estão o violão de aço e a gaita; se o tema trata de raízes culturais, ouve-se um berimbau; se a parada é punk, tome guitarras distorcidas e coros vocais gritando palavras de ordem; se a onda é reggae, surge o wah-wah e uma levada de guitarra escovada. E por aí vai.
O destaque do trabalho fica por conta do excelente naipe de metais formado por Anderson (sax) e Ricardo (trombone), que é acionado em praticamente todas as faixas, se adaptando muito bem aos diferentes gêneros e estilos musicais abordados nas composições. As letras trilham o mesmo caminho, fazendo uso de linguagens e gírias inerentes ao tema proposto em cada canção. Dependendo da faixa em questão, a mensagem tanto pode ser profunda e reflexiva quanto divertida e despretensiosa.
Dentre as faixas, destaque para "Além do vento", que traz um pop/rock com tintas de ska e algum tempero latino; "Seu Valor", um autêntico reggae roots; "Zero à esquerda", um punk misturado com diexeland que lembra muito os Raimundos do primeiro CD; "Coqueiral", uma espécie de calango que remete à fase pré-rock do Skank; "Lançamento Vertical", que traz a letra mais divertida do disco; e finalmente a segunda (e frenética) versão de "Sei lá", que fecha o disco com chave de ouro.
(*por Leandro Becker - 20/05/2007)

$ifrão é:
Marcos Bruno – voz, guitarra, violão
Thiago André – percussão
Henrique Medeiros – bateria
Cazamba – guitarra
Tony – baixo
Anderson – sax
Ricardo – trombone

Agradecimentos e créditos: MP3 Magazine


Info & Buy: BuscaPé

Picassos Falsos - Novo Mundo (2004)

"Unfinished business" , como se diz em inglês: algo que ficou parado pelo meio, não concluído, e que ainda está por resolver. Tudo aquilo que faltou fazer, que faltou dizer. Foi assim com os Picassos Falsos. Quinze anos atrás, com apenas dois álbuns no currículo. Picassos Falsos, de 1987, e Supercarioca, de 1988 , o quarteto se separou. No topo da forma. Com muito ainda por fazer.
Ficou cada um por si: o vocalista Humberto Effe gravou um álbum solo pela Virgin, em 1995, antes de mergulhar no trabalho de compositor para Cris Braun, Toni Platão, Frejat, e Skank, e de colaborar com Dado Villa-Lobos na trilha do longa Buffo & Spalanzani.
O guitarrista Gustavo Corsi virou " giggeiro ", músico contratado para acompanhar Ivo Meirelles, Dulce Quental, Marina Lima, Gabriel O Pensador, Kátia B e Cláudio Zoli. Quando sentiu saudades de trabalhar em banda, formou a dançável Rio Sound Machine. O baixista Romanholi deu as costas à musica e dedicou-se integralmente ao jornalismo. O baterista Abílio Rodrigues abriu uma loja de instrumentos, formou-se professor em Filosofia e tratou de estudar música. E, no entanto, ficava sempre faltando um pedaço.
"Foi uma grande pena a banda ter acabado", recorda Abílio. "Tinha um potencial enorme ainda não realizado". " Supercarioca era uma bela carta de intenções", define Gustavo, referindo-se ao segundo e último álbum da banda, "que precisava de mais trato". Coube a Abílio pegar o telefone e reconvocar a banda, em 2001. Ele e Romanholli haviam se re-encontrado por conta do "Diamante Cor de Rosa", projeto do baixista focado no repertório de Roberto Carlos. Mas retomar os Picassos Falsos tornou-se a prioridade. "Fiquei um pouco cético", lembra Humberto. "Após tanto tempo sem estar (todo mundo) junto, não sabia no que ia dar. Demorou alguns meses de laboratório para a gente se re-encontrar".
Se a reunião dos Picassos Falsos coincidiu com a reforma de outras bandas dos anos 80, houve o compromisso de se distanciar ao máximo de qualquer manifestação de saudosismo. "Não queria ser mais um com nada de novo a fazer, a dizer", explica Humberto. "A gente voltou depois do " revival" dos anos 80", arremata Romanholli. "O nosso objetivo era retomar a banda do Supercarioca em diante. Nada a ver ficar fazendo" Remix 2001"de "Quadrinhos", um dos primeiros sucessos da banda.
Dito e feito. Novo Mundo, longe de ser um exercício nostálgico, retoma a conversa musical interrompida em 1988 da forma mais coerente e orgânica possível. É uma progressão natural a partir de Supercarioca : no caldeirão se misturam samba ("Rua do Desequilíbrio", "Pra Deixar de Ficar Só"), baião movido a guitarra ("Presidente Vargas"), samba-jazz ("Zig-Zag 2"), pop ("Até Onde For Seguir") , rock ("Eletricidade") e balada (a faixa-título). O intervalo de quase duas décadas afiou a capacidade dos integrantes. "Antes éramos mais peladeiros", admite Romanholli, "mas amadurecemos musicalmente. Todos estão tocando melhor, e o Humberto está compondo melhor".
De fato, Novo Mundo representa um salto quântico em termos da segurança e a autoridade com que a banda retoma seu justo e devido lugar na cena musical brasileira. Com a vantagem de agora todos os integrantes trazerem uma bagagem adicional de 15 anos de experiência.
Assim como sem Gilberto Gil, Mutantes, Novos Baianos e Paralamas do Sucesso os Picassos Falsos não teriam existido, sem os Picassos Falsos talvez o Brasil não tivesse tido Chico Science e Nação Zumbi, Los Hermanos, Pedro Luís e A Parede (e a lista continua). Os Picassos Falsos são síntese. São os arquitetos de um admirável Novo Mundo onde co-habitam Hendrix e Ismael Silva, sertão e Led Zeppelin, Prince e repente, forró e funk, samba e rock and roll.
Que falta faziam. Bem-vindos de volta.
(José Emilio Rondeau, Rio de Janeiro, Maio de 2004)

Novo Mundo (2004)

1. Você não consegue entender
2. Porta-Bandeira
3. Avenida
4. Presidente Vargas
5. Rua do desequilíbrio
6. Zig-zag 2
7. O filme
8. Novo mundo
9. Até onde eu for seguir
10. Pra deixar de ficar só
11. Me diga seu nome
12. Eletricidade

[ Download do álbum completo via Badongo ]


Site: PicassosFalsos.com.br


[ Mais informações e compras no BuscaPé ]